Orações intercaladas ou interferentes: como identificar (com exercícios)

Luzia Julidori
Luzia Julidori
Professora de Língua Portuguesa

Orações intercaladas ou interferentes são orações inseridas em outra estrutura para acrescentar um comentário, uma observação, uma ressalva ou uma indicação de fala do enunciador. Em sentido sintático, apresentam independência em relação à oração em que se inserem, isto é, não exercem função sintática dentro dela.

Neste conteúdo você encontra:

Exemplos

1. A prova, acredito eu, será tranquila.
acredito eu = oração intercalada.

2. O aluno — disse a professora — melhorou bastante.
disse a professora = oração intercalada.

3. Ele chegará cedo, espero, para a reunião.
espero = oração intercalada.

4. O resultado, afirmou o professor, foi excelente.
afirmou o professor = oração intercalada.

Como identificar uma oração intercalada ou interferente

Um recurso prático é verificar se a oração introduz um comentário independente e se pode ser retirada sem comprometer a estrutura sintática principal do período.

A professora, acredito eu, corrigirá as provas hoje.
A professora corrigirá as provas hoje.

A retirada de “acredito eu” preserva a estrutura principal. Isso indica que a expressão funciona como oração intercalada ou interferente.

Atenção: o teste da retirada é um recurso didático. A classificação deve considerar principalmente a relação sintática estabelecida no período.

Valores das orações intercaladas ou interferentes

As orações intercaladas podem assumir diferentes valores discursivos. Entre os mais frequentes estão:

  • comentário ou opinião: O resultado, acredito eu, será positivo.
  • indicação de fala: O projeto — afirmou a diretora — começará amanhã.
  • observação ou ressalva: A proposta, convém lembrar, ainda será analisada.

Esses valores não constituem uma classificação sintática rígida; indicam o sentido acrescentado pela oração ao enunciado.

Pontuação das orações intercaladas ou interferentes

As orações intercaladas costumam ser isoladas por vírgulas, travessões ou parênteses, de acordo com o efeito de destaque pretendido.

  • Vírgulas: A situação, penso eu, pode melhorar.
  • Travessões: A situação — afirmou o diretor — será resolvida.
  • Parênteses: A situação (informou o diretor) será resolvida.
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Oração intercalada x oração subordinada adjetiva explicativa

A oração intercalada pode ser confundida com a oração subordinada adjetiva explicativa, pois ambas podem aparecer isoladas por sinais de pontuação. A diferença principal está na relação sintática que estabelecem no período.

Oração intercalada ou interferente

Oração subordinada adjetiva explicativa

É sintaticamente independente da oração em que se insere.

Mantém relação sintática com um termo antecedente.

Introduz comentário, observação, ressalva ou indicação de fala.

Caracteriza ou explica um substantivo ou pronome antecedente.

Não se liga à oração principal por pronome relativo.

É introduzida por pronome relativo, como que, quem, o qual, cujo e onde, conforme o contexto.

Ex.: A professora, disseram os alunos, chegou cedo.

Ex.: A professora, que chegou cedo, preparou a sala.

Como diferenciar?

Observe se a oração está caracterizando ou explicando um termo antecedente e se há um pronome relativo retomando esse termo, por exemplo:

A professora, que chegou cedo, preparou a sala.

O pronome relativo “que” retoma “a professora”, e a oração “que chegou cedo” acrescenta uma informação sobre esse termo. Portanto, trata-se de uma oração subordinada adjetiva explicativa.

Agora, veja este exemplo:

A professora, disseram os alunos, chegou cedo.

A oração “disseram os alunos” não caracteriza “a professora”. Ela introduz uma informação independente na estrutura principal. Portanto, é uma oração intercalada ou interferente.

Dica: não classifique uma oração apenas pela presença de vírgulas, travessões ou parênteses. Observe principalmente sua função e sua relação sintática no período.

Exercícios sobre orações intercaladas ou interferentes

1. Assinale a alternativa em que o trecho destacado constitui uma oração intercalada ou interferente.

a) Espero que todos compreendam a explicação.

b) Os estudantes que chegaram cedo entraram na biblioteca.

c) A decisão, acredito eu, será anunciada amanhã.

d) Quando a aula terminou, os estudantes deixaram a sala.

e) A professora explicou por que os resultados haviam mudado.

Gabarito explicado

Gabarito: c.

Comentário: Em “A decisão, acredito eu, será anunciada amanhã”, a oração “acredito eu” introduz um comentário do enunciador e é sintaticamente independente da estrutura principal. Sem ela, permanece “A decisão será anunciada amanhã”.

2. Leia: “Os alunos, que haviam estudado bastante, resolveram rapidamente os exercícios.”

A oração “que haviam estudado bastante” não é uma oração intercalada ou interferente, em sentido sintático, porque

a) não apresenta verbo.

b) exerce função de sujeito da oração principal.

c) é uma oração coordenada explicativa.

d) caracteriza o termo antecedente “os alunos” e é introduzida por pronome relativo.

e) apresenta obrigatoriamente uma circunstância de causa.

Gabarito explicado

Gabarito: d.

Comentário: “Que haviam estudado bastante” é uma oração subordinada adjetiva explicativa. O pronome relativo “que” retoma “os alunos”, e a oração acrescenta uma informação sobre esse antecedente.

3. Compare:

I. A professora, disseram os alunos, explicou novamente o conteúdo.
II. A professora, que percebeu a dúvida dos alunos, explicou novamente o conteúdo.

A análise correta é:

a) I e II apresentam orações subordinadas adjetivas explicativas.

b) I apresenta oração subordinada substantiva, e II apresenta oração intercalada.

c) I apresenta oração intercalada, e II apresenta oração subordinada adjetiva explicativa.

d) I apresenta oração coordenada explicativa, e II apresenta oração intercalada.

e) I e II apresentam orações intercaladas, pois ambas aparecem entre vírgulas.

Gabarito explicado

Gabarito: c.

Comentário: Em I, “disseram os alunos” é sintaticamente independente e funciona como oração intercalada. Em II, “que percebeu a dúvida dos alunos” é subordinada adjetiva explicativa, pois o pronome relativo “que” retoma “a professora”. A pontuação, sozinha, não determina a classificação.

4. (UECE) (2017) — adaptada

Em prova da UECE, aparece o trecho: “Crescendo durante essa revolução, Munch — que, aliás, também seria fotógrafo — achava a linguagem dos impressionistas superficial e científica.”

Nesse contexto, a expressão “que, aliás, também seria fotógrafo” é corretamente analisada como

a) oração coordenada sindética explicativa

b) oração subordinada substantiva.

c) oração subordinada adjetiva explicativa, interposta na estrutura principal e isolada por travessões.

d) oração subordinada adverbial causal.

e) oração sintaticamente independente, sem relação com termo antecedente.

Gabarito explicado

Gabarito: c.

Comentário: O pronome relativo “que” retoma “Munch”; por isso, a oração é subordinada adjetiva explicativa. Na prova original, a UECE emprega a expressão “oração intercalada” para indicar que essa oração está inserida no interior da estrutura principal. Aqui, é importante distinguir o uso posicional de “intercalada” da classificação sintática “oração intercalada ou interferente”, entendida como independente.

Fonte da questão original: UECE — Vestibular 2017.1, 2.ª fase, prova de Língua Portuguesa. Acessar a prova oficial da UECE

Veja também: Orações subordinadas adjetivas (restritiva e explicativa)

Referências Bibliográficas

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. rev., ampl. e atual. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 7. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2016.

LIMA, Carlos Henrique da Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 49. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

Luzia Julidori
Luzia Julidori
Professora de Língua Portuguesa e Literatura, licenciada em Letras, pós-graduada em Gestão Educacional e mestranda em Educação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Atua há mais de 20 anos na Educação Básica, com experiência no ensino de Língua Portuguesa, Literatura e produção textual.

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