Serra Pelada

Juliana Bezerra

Serra Pelada foi o maior garimpo do Brasil cuja exploração se deu principalmente de 1980 a 1983.

Localizado na Serra dos Carajás, no Pará, era um morro sem vegetação de 150 m2. Atualmente, só resta uma cratera de 24 mil m2, com 70 a 80 metros de profundidade, que as águas transformaram num lago poluído de mercúrio.

Calcula-se que foram extraídos cerca de 45 toneladas de ouro desde sua inauguração até o fechamento oficial em 1992.

Origem

A atividade garimpeira na região começou em 1979, quando o agricultor Genésio Ferreira da Silva descobriu uma pepita de ouro de 13 quilos em suas terras.

Cinco semanas depois da descoberta, 3 mil pessoas foram para a região, em busca de fortuna. No primeiro semestre de 1980, Serra Pelada já contava com 5 mil mineiros vindos de todas as partes do Brasil, especialmente do Nordeste.

Serra Pelada
Aspecto da exploração de Serra Pelada, pelo fotógrafo Sebastião Salgado

O local de instalação do garimpo pertencia à Companhia Vale do Rio Doce. A subsidiária da companhia, a Rio Doce Geologia e Mineração, permaneceu no local, mas não pôde explorar o metal, nem expulsar os garimpeiros do local.

No mesmo ano, o governo federal interviu em Serra Pelada com objetivos políticos e econômicos. Apesar de ser o final da ditadura militar e a abertura política já ter começado, os militares tinham medo que os comunistas poderiam aproveitar a aglomeração de pessoas para fazer adeptos.

Igualmente, pesava o fato do conflito do campo, pois se todos aqueles homens fossem retirados dali em busca de terras, a tensão no Pará se elevaria ainda mais.

Assim, foram instalados uma série de órgãos no garimpo como a Polícia Federal, a Receita Federal, Correios, a Caixa Econômica.

Só era possível vender o ouro na agência da Caixa Econômica e o governo poderia controlar o preço do metal e arrecadava impostos. O preço pago era sempre maior que o do mercado.

Foi nomeado um interventor federal para o local, o Major Curió, que estabeleceu uma série de regras. O militar conhecia bem a região amazônica, porque tinha feito parte dos combates que terminaram com a Guerrilha do Araguaia.

O Major Curió estabeleceu o controle aos acessos e somente garimpeiros registrados eram permitidos em Serra Pelada. A presença de mulheres foi proibida, bem como de armas, jogos de azar e bebidas alcoólicas.

As medidas levaram à criação de vilas no entorno do garimpo que eram visitadas pelos garimpeiros nos fins de semana e alguns garimpeiros chegaram a trazer suas famílias.

Embora tenha recebido ordens para incendiar os barracos, o Major Curió preferiu dar melhorias para estas casas e mais tarde, a cidade receberia o seu nome, Curionópolis.

Apesar disso de todas as proibições, a região era marcada pela violência e ao menos 80 assassinatos eram registrados por mês na área. Calcula-se que tenham vivido ali até 116 mil homens em péssimas condições de trabalho e higiene.

Exploração

Serra Pelada barranco
Técnicos da Cooperativa dos Garimpeiros medem a área de um barranco, em 1985

A Serra Pelada era explorada através da venda de “barrancos” que consistiam numa área de 3 x 2 m2 que chegavam a custar milhões. Algumas pessoas encontraram pepitas de 60 quilos e era esta a ilusão que fazia todos continuarem ali.

Em cada barranco trabalhavam de 10 a 15 homens divididos em “cavador”, o “enchedor” e “formigas”, que eram aqueles que carregavam a terra para fora do barranco.

Com o passar do tempo, quem achava mais pepitas, comprava mais barrancos. Para vigiar e anotar as atividades estavam os capatazes.

Sem nenhuma proteção, calçado ou vestimenta especial, os trabalhadores ficavam cobertos de lama carregando sacos de até 30 quilos.

Uma das formas de contratar garimpeiros era dividir uma parte dos lucros encontrados com os trabalhadores. A alimentação, roupas e calçados deveriam ser fornecidos pelos donos dos barrancos.

As atividades de garimpagem paravam na estação das chuvas quando era impossível transitar naquelas terras.

Fechamento do Garimpo

A primeira tentativa de encerrar atividade garimpeira de Serra Pelada ocorreu em 1982. Na ocasião, o presidente Figueiredo marcou a data de fechamento da jazida para evitar desgaste. O fechamento deveria ocorrer em 15 de novembro de 1983.

Articulações de políticos garantiram a continuação da retirada de ouro do local por mais cinco anos após a data estipulada para o fechamento. O governo foi retirando sua presença e os garimpeiros começaram a utilizar mercúrio para separar o ouro do cascalho.

Foi criada a Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp), em 1984, que detém os direitos de exploração da lavra de 100 hectares, através da Lei 7.194, aprovada pela ação do então deputado federal Curió. Da mesma forma, o governo federal decidiu indenizar a Companhia Vale do Rio Doce.

Em 1992, o presidente Fernando Collor de Mello ordena o fechamento do local e a retirada das máquinas de drenagem. A água dos lençóis freáticos e da chuva começam a ocupar o espaço que foi casa de milhares de pessoas.

Serra Pelada lago
Vista aérea do lago onde está submersa Serra Pelada

Desde então, os garimpeiros remanescentes esperam por uma indenização do governo federal por conta do encerramento das atividades. Cerca de 6 mil pessoas ainda vivem naquela que foi a maior mina de ouro a céu aberto.

Os garimpeiros remanescentes seguem cavando buracos e buscando ouro nas terras removidas pelos "formigas". Há pessoas que nunca mais voltaram as suas casas, pois não enriqueceram ou então perderam tudo que ganharam.

Em 2001, o Senado Federal reconheceu o direito dos garimpeiros sobre o local. Em 2006 havia um impasse entre os garimpeiros, o governo e a Vale do Rio Doce. Um ano depois, a Vale cedeu à cooperativa de trabalhadores o direito de explorar a mina em consórcio com empresa Colossus, do Canadá.

A empresa pagava mais 350 mil reais mensais para a Coomigasp, que deveria repassar para seus 40 mil associados. Isso não acontecia e calcula-se que 54 milhões de reais foram desviados

A retomada da extração de ouro estava prevista para 2014, mas não ocorreu após uma série de demissões de trabalhadores e entreves burocráticos.

Filmes

A exploração de Serra Pelada inspirou vários filmes, documentários e o ensaio fotográfico realizado pelo fotógrafo Sebastião Salgado.

  • O filme "Serra Pelada", dirigido por Heitor Dhalia em 2013, conta a história de dois amigos que saem de São Paulo e vão tentar a sorte em Serra Pelada. Lá encontram a dura realidade da exploração do ouro enquanto se envolvem em crimes.
  • O grupo humorístico "Os Trapalhões", em 1982, lançou o filme "Os Trapalhões na Serra Pelada" com cenas filmadas no local.
  • Antes do fechamento de Serra Pelada pelo governo, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado retratou o duro cotidiano do garimpo. Suas fotos em preto e branco expunham com sensibilidade as precárias condições de vida daqueles homens.

Curiosidades

  • O presidente Figueiredo visitou Serra Pelada em 12 de novembro de 1980.
  • O pior acidente de Serra Pelada causou a morte de 17 garimpeiros soterrados por um barranco.
  • O major Curió se elegeu foi presidente da Coomigasp, prefeito de Curionópolis (PA) e deputado federal. Até hoje é uma figura proeminente na região e guarda um importante arquivo sobre a Guerrilha do Araguaia.

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Juliana Bezerra
Juliana Bezerra
Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.