Revolução Puritana

Juliana Bezerra

A Revolução Puritana, também chamada de Guerra Civil Inglesa, transformou a distribuição e a forma de poder da Inglaterra no século XVII,

Com a Revolução Gloriosa esses movimentos marcaram a mudança de governo de monarquista absolutista para um Estado liberal-burguês.

Antecedentes

A Revolução Puritana é um efeito direto da Reforma Protestante, às necessidades da burguesia e à aristocracia rural, que passaram por intenso desenvolvimento comercial.

O movimento representou um desafio à monarquia e à teoria do direito divino. Esta dizia que o poder do rei era transmitido por Deus e assim ele tinha a legitimidade para governar seus súditos.

De fato, a Revolução Puritana era uma insurreição religiosa, política, social e econômica. Estavam em guerra interesses de parlamentares, monarquistas e representantes de diversos grupos protestantes da Inglaterra.

Causas

Rainha Elizabeth

A Rainha Elizabeth I é um exemplo de monarca absoluta na Inglaterra

O descontentamento iniciou após a morte da rainha Elizabeth I (1533-1603), da Casa Tudor. A rainha recusou-se a casar e não deixou sucessores. Assim, subiu ao trono o rei James Stuart, da Escócia, filho da rainha Maria Stuart.

Antes da morte de Elizabeth I, a expectativa de alguns súditos, contudo, era de que ascendesse ao trono Maria, Rainha dos Escoceses (1542-1587), que era católica.

Ela estava como prisioneira na Inglaterra acusada de planejar o assassinato de Elizabeth. A rainha Elizabeth I terminou por concordar com a execução de Maria Stuart, em 8 de fevereiro de 1587.

Além da ameaça direta ao trono, a rainha ainda assistiu a mudança na nobreza, cujo papel militar já não era de vital desempenho para a Inglaterra.

Os nobres também estavam perdendo espaço no governo, enquanto a Câmara dos Comuns passava a desempenhar papel próximo ao da Câmara dos Lordes no Parlamento.

Por sua vez, a pequena nobreza exigia voz no Parlamento e a Igreja Católica perdia a importância.

Além disso, a pequena burguesia era simpática aos puritanos. Eles argumentavam que a Igreja Anglicana, estabelecida por Elizabeth I, era ainda muito próxima ao catolicismo romano, com a imposição de rituais próximos ao catolicismo nas celebrações.

A rainha, contudo, recusou quaisquer mudanças e as discordâncias formaram a base para a guerra civil.

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Teoria do Direito Divino

Criado por tutores escoceses calvinistas, o rei James I, se aplicou a defesa da crença ao direito divino dos reis ao ascender ao trono inglês.

O soberano escreveu quatro livros nos quais demonstrava ser a monarquia uma instituição ordenada divinamente. Deste modo, o rei era o responsável por realizar a vontade de Deus na Terra e, além disso, estava acima da lei.

A linha de pensamento do rei entrou em conflito com o Parlamento em 1604. Os puritanos o confrontaram exigindo a reforma da Igreja Anglicana - com a retirada dos rituais - ao mesmo tempo em que os pequenos burgueses pleiteavam mais influência política.

Ao contrário do esperado, o rei endureceu a maneira de agir e fez diversos discursos no Parlamento reafirmando o seu direito divino de governar.

Por conta do posicionamento, foi confrontado pelo advogado constitucional Edward Coke sob o argumento que o rei está sob a lei e não acima dela.

O rei James I permaneceu até a morte no trono sem que houvesse mudanças na teoria do direito divino. Antes de morrer, contudo, ameaçou os puritanos de expulsão e em 1620, um grupo fugiu para a América.

No lugar de James, assumiu o filho Charles I (1600-1649) que aplicava uma política considerada eficiente, mas benevolente. Tinha como marca, ainda, a ojeriza ao catolicismo e odiava, mais que o pai, os puritanos.

O reino de Charles I começou definhar quando ele escolheu George Viliers, duque de Buckingham (1592-1628), como seu principal conselheiro. Este votou contra o envio de mais suprimentos e tropas à Guerra dos Trinta Anos.

Desta forma, o rei Charles I dissolveu o Parlamento e recorreu a um empréstimo forçado. Devido à falta de dinheiro, porém, foi obrigado a chamar novamente os parlamentares.

Na sessão, ocorrida em 1628, o rei foi obrigado a aceitar o documento denominado Petição de Direito. Nele, o monarca se comprometia:

  • Respeitar os súditos;
  • Decretar o fim do aquartelamento de tropas;
  • Tornar ilegal tributos irregulares e prisões arbitrárias.

Censura à Liberdade Religiosa

O rei ainda foi confrontado, em 1629, com outras leis que interferiam diretamente no reinado .

Naquele ano, o Parlamento aprovou duas resoluções. A primeira decretava inimigo do reino quem tentasse trazer inovações para a religião - quando ele era claramente simpático ao catolicismo.

A segunda resolução determinava que seria considerado inimigo do reino quem estipulasse a cobrança de direitos aduaneiros sem o consentimento do Parlamento.

Em decorrência das resoluções, Charles I dissolveu o Parlamento, que não seria convocado por 11 anos.

Direitos do Povo

As atitudes do rei levaram os puritanos a apelar em defesa da Carta Magna e aos direitos de todos os súditos ingleses.

A base do questionamento era a teoria do direito divino da realeza. Para os puritanos, isto destruía quaisquer apelos à lei, limitava o direito de propriedade e os direitos pessoais. Em suma, a burguesia inglesa avaliava que era preciso limitar a prerrogativa do rei para governar.

As discordâncias entre o rei e o Parlamento se materializaram em 1640. No momento, o rei Charles I convocou os integrantes para financiar a guerra contra a Escócia e foi contra-atacado pelo Alto Comissariado.

Os questionamentos não foram aceitos pelo rei, que formou um exército para combater o Parlamento.

A primeira investida do exército ocorreu em 1641, quando estourou uma rebelião contrária ao domínio inglês sobre a Irlanda. Após essa, muitas batalhas ocorreram e começa, efetivamente, a guerra civil.

Entra, assim, em cena, um novo modelo de gestão das forças armadas, o "New Model Army", aprovado em 1644 sob a defesa de Oliver Cromwell (1599-1658), na Câmara dos Comuns.

Oliver Cromwell

Revolução Puritana

A execução de Carlos I põe fim à Revolução Puritana. Autor: James Weesop

Cromwell era um membro da pequena nobreza e viveu a vida como um cavalheiro. Integrava o Parlamento desde 1640. Fazia parte de uma família abastada, defendia que as distinções de classe eram o pilar da sociedade e opunha-se ao nivelamento de cidadãos, condição apregoada pelos puritanos.

As discordâncias de Cromwell, em relação ao rei Charles I, estavam na tributação do cidadão, na insegurança do direito de propriedade e na falta de liberdade religiosa.

Embora questionasse a teoria do direito divino, Cromwell acreditava sinceramente que Deus o havia escolhido para liderar o povo contra Charles I.

Em 1º de janeiro de 1649, o rei Charles I foi acusado de "tirano, traidor, assassino, inimigo público e implacável para a comunidade da Inglaterra".

O julgamento foi manipulado e dos 135 juízes, somente metade apareceu, sendo permitidos à sessão apenas aqueles que apoiavam Cromwell.

Sob o argumento de que reis devem prestar contas ao povo e não somente a Deus, Cromwell liderou o julgamento e Charles I foi condenado a morte por decapitação.

Consequências

Com a morte de Charles I, a monarquia foi abolida e foi declarada república na Inglaterra.

O Parlamento foi dissolvido e em 1653, Cromwell assumiu o poder com o título de Lorde Protetor da República em um período conhecido como "Commonwealth".

Quando morreu, no seu lugar assumiu o filho Richard, que era considerado fraco em comparação ao pai. Devido às desavenças internas, em 1658, o Parlamento decide restaurar a monarquia.

O sistema de monarquia parlamentar foi estabelecido após acordo entre o Parlamento e Guilherme de Orange. Por volta de 1660, Charles II (1630-1685) retornava da Holanda e assume o trono.

Termina, assim, a guerra e a Inglaterra passa pelo período conhecido como Restauração.

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Juliana Bezerra
Juliana Bezerra
Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.